Está na hora de eu dar minha opinião sobre tudo isso... Apesar de
admirar o pensamento de todos os autores citados acima – incluindo dos
que discordo –, penso que ainda há uma forma de resumir estas questões
da unificação fundamental, do surgimento da vida e do paradoxo de ainda
não termos encontrado nenhum sinal de vida inteligente neste Cosmos
tão grande.
Este é o problema, o paradoxo, e também a solução – ele é grande,
muito
grande, talvez não muito diferente, na prática, do infinito. Quando os
cientistas descobriram a radiação de fundo cósmica, uma das maiores
comprovações experimentais da teoria do Big Bang, também se depararam
com um grande problema: como explicar como ela era tão homogênea?
Isto foi resolvido pela teoria do físico Alan Guth. A sua idéia é
que, na aurora do tempo, o espaço inflou com uma velocidade
absurdamente grande. Dois pontos que, inicialmente, eram vizinhos,
durante a expansão ultra-rápida se distanciaram mais rapidamente do que a
velocidade da luz. Para que o mecanismo funcionasse e pudesse explicar
a geometria cósmica e a homogeneidade da matéria, e expansão tinha de
ser exponencialmente rápida. Por isso, sua teoria ficou conhecida como
Inflação Cósmica. Atualmente esta teoria é aceita pela grande maioria dos cientistas.
Uma das conseqüências da Inflação é o conceito de
horizonte cósmico...
Sabemos que nada material viaja mais rápido do que a luz, entretanto,
durante a Inflação, o próprio tecido do espaço-tempo “inflou” de forma
mais rápida do que a luz! Isso significa que existe um horizonte até
onde podemos enxergar o universo – e além dele há o “universo
desconhecido”, além do alcance da luz do nosso lado, do nosso
horizonte, como uma América que jamais poderá ser alcançada por
Colombo.

Diante dessas informações, eu muitas vezes me pergunto, ou melhor,
me vejo fazendo a seguinte pergunta aos cientistas: “Meus caros, que
parte do infinito vocês não entenderam?”
Os cientistas procuram por agulhas no palheiro cósmico, e ao não encontrá-las ficam
algo
inquietos e angustiados... Para os que seguem a bíblia, como Heeren,
isso só pode significar que Deus escolheu mesmo apenas aquele povo
perdido num deserto da terceira pedra do Sol, na periferia de uma dentre
trilhões de galáxias; Para os céticos desiludidos com a busca pela
unificação na ciência, ou pela busca da “vida abundante” no Cosmos,
isso só pode significar que somos um raríssimo acidente em meio a um
universo caótico e hostil; Ainda para outros, talvez mais moderados,
isso tão somente significa que o Cosmos é grande, realmente grande –
mas
quão grande?
É aí que o infinito entra para bagunçar com todas as teorias e
crenças de tantas mentes brilhantes. O infinito não se equaciona, está
além da matemática e talvez mesmo além de nossa racionalidade... Mesmo
assim, ainda é possível tentar vislumbrá-lo pela lógica, tal qual
arriscou o grande Benedito Espinosa.
Em sua “Ética” (Ed. Autêntica), Espinosa analisa a questão da criação, do “
porque existe algo e não nada?”.
Podem acusá-lo de ser mais um “sonhador da unidade fundamental de
todas as coisas” – tal qual o faz Marcelo Gleiser com certa propriedade
–, mas apenas acusar não basta: é preciso resolver a questão, é
preciso encarar ao infinito face a face. E até hoje, que me desculpem
os seguidores da bíblia e cientistas céticos, dentre todas as teorias
acima citadas, somente ele avançou efetivamente nesta questão.
Se algo não surge do nada, nem mesmo flutuações quânticas no vácuo,
nem mesmo um espaço vazio ou um pensamento, então há que existir algo
de incriado, algo de eterno. Espinosa o chamou de Substância, “a
Substância que não poderia criar a si mesma”... Ora, como sabemos que
espaço e tempo estão intimamente conectados, falar em eternidade é falar
em infinito.
Comparativamente, o núcleo de um átomo em relação à órbita de seus
elétrons corresponderia a um pequeno inseto no centro de um estádio de
futebol, uma mosca no meio do Maracanã. O
resto é espaço vazio,
ou preenchido por alguma parte dos 96% de matéria ou energia escura
que não interagem com a luz e, portanto, jamais foram detectados pela
ciência – postula-se sua existência pela observação do movimento das
galáxias, na media em que falta
bastante matéria para explicá-lo.
Seguindo nesse pensamento, sabemos que apenas em nosso horizonte
cósmico existem mais estrelas (sóis como o nosso, cheias de planetas à
volta) do que grãos de areia em todas as praias da Terra! E mesmo que
nem uma única forma de vida exista em torno desses trilhões e trilhões
de sóis, lembrem-se de que estamos falando apenas de nosso horizonte,
de até onde nossa luz pode chegar. No “universo desconhecido” temos
praticamente um infinito de possibilidades. É muito difícil afirmar
qualquer coisa do tipo “não existe vida fora da Terra” ante à tal
infinito.

Procuramos por agulhas num palheiro cósmico, mas não devemos
esmorecer se a busca tem se mostrado árdua... Não devemos esmorecer
ante o infinito, pois ele é tudo o que há, ele é a Substância que
abarca a todos nós. Procuramos por versões conscientes dessa Substância,
mas por vezes esquecemos que também somos formados por ela, que também
estamos
encharcados desse mar por todos os lados.
Por mais rara que seja a vida na Terra, ela não se compara à
raridade da simples existência de tudo o que há. Como os 4% da matéria
que interage com a luz, ou como a ínfima quantidade de elementos
pesados que possibilitam a vida como a conhecemos em meio a um oceano de
hélio e hidrogênio, somos tão raros quanto a própria Substância. E
mesmo que sejamos poucos na Terra, nos confins de nosso horizonte
cósmico e além, certamente seremos muitos – tantos quanto às estrelas
em meio ao infinito.
Da próxima vez que se angustiarem com a escuridão da noite, com a
idéia do nada e da morte vindoura, lembrem-se de que também temos
tantos neurônios em nosso cérebro quanto estrelas no céu, lembrem-se de
tudo isso que nos lembramos, e pensamos, e sentimos, e intuímos.
Lembrem-se e afirmem para si mesmos:
Isto não é o nada.
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Crédito das imagens: Silent World