A palavra Deus, para mim, é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana; a Bíblia, uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.

— Albert Einstein
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma bíblia sem deus.


O professor de filosofia da Universidade de Londres AC Grayling acaba de lançar seu novo livro "The Good Book - a Secular Bible", ainda sem tradução para o português.
No livro, Grayling segue a mesma estrutura da bíblia e começa pelo Genesis, seguindo depois sua organização em capítulos e versos.
O curioso é que nas mais de 600 páginas a palavra "deus" não é citada uma única vez e desta forma seus leitores estarão livres de ordens para matar filhos, dizimar cidades e outras sugestões caridosas dadas pelo "piedoso" deus judaico-cristão.
O livro relaciona pensamentos de Aristoteles, Newton, Cícero, Confúcio e, claro, Charles Darwin.
Graylin compõe com Dawkins e Hitchens o trio de ouro do ateismo contemporâneo, leituras que valem muito a pena.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Vida e a Bola


 
“A vida é como jogar uma bola na parede: Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul; Se for jogada uma bola verde, ela voltará verde; Se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca; Se a bola for jogada com força, ela voltará com força. Por isso, nunca ‘jogue uma bola na vida’ de forma que você não esteja pronto a recebê-la. A vida não dá nem empresta; não se comove nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos.” Albert Einstein
Albert Einstein

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Alguém tem de estar errado


Quando analisamos as doutrinas das maiores religiões mundiais, percebemos que nem todos podem estar certos. Para muitos cristãos, Jesus foi uma espécie de avatar de Deus; Para os muçulmanos Jesus foi mais um na linhagem de profetas, porém apenas homem; Já para certos judeus Jesus não passa de um herege... Nós poderíamos prosseguir com inúmeros exemplos, seja dessas religiões majoritárias, seja de tantas outras doutrinas pelo mundo: Uns afirmam que a teoria de Darwin-Wallace é um equívoco e que a história de Adão e Eva é a descrição mais fiel da realidade do surgimento do ser humano na Terra, enquanto outros aceitam (com ou sem ressalvas) o evolucionismo dentro de sua doutrina; Uns afirmam que Buda atingiu o nirvana e foi o maior sábio a passar pelo mundo, outros desdenham dizendo que a meditação budista não serve para nada; Uns afirmam que é possível se comunicar com espíritos sábios e receber instruções profundas de conduta moral, outros dizem que não passa de misticismo fajuto ou comunicação com entidades demoníacas; Uns afirmam que Deus não pode ter criado o mal e que um inferno eterno não existe, outros fazem ameaças dizendo que aqueles que não aceitam ou temem ao mesmo Deus serão condenados ao inferno; Uns afirmam se comunicar com Deus todos os dias, outros dizem que é impossível termos qualquer tipo de compreensão aprofundada de Deus (se é que ele existe)... É, acho que já deu para ter uma idéia da confusão né?
Decerto existem muitos que gostam de trocar idéias e aceitam (com ou sem ressalvas) a crença ou descrença alheia - Porém há que se admitir que é bem mais fácil encontrar os radicais, em maior ou menor grau, que se tornaram "especialistas" na arte da supersimplificação: ou uma doutrina está totalmente correta, ou totalmente errada. Pior ainda são aqueles radicais que colocaram na cabeça que a sua doutrina, ou a sua verdade, deve ser espalhada pelos sete ventos, pois "certamente todos seriam mais felizes seguindo-na". Pode-se pensar que esse grupo é composto apenas de evangelizadores religiosos; mas não: existem alguns ateistas ou céticos radicais que acreditam piamente que devem "converter" os outros a "luz da razão" - Mas, e quem julga o que é racional, factível, verdadeiro?
Alguns séculos antes do nascimento de Jesus, o método experimental surgia na ilha de Samos, na Grécia. Enquanto o grande Pitágoras descobria os fundamentos da física, da matemática, da geometria, da música e outros conceitos que foram depois classificados como esotéricos, outros sábios da mesma ilha inauguravam o método experimental: observavam a natureza antes de confirmar qualquer teoria, e não mais se limitavam apenas ao campo das idéias (mental). Aristarco de Samos foi uma dos primeiros a prever que a Terra girava em torno do Sol, e não muito longe de Samos, em Alexandria Eratóstenes já provava que a Terra era uma esfera com o auxílio de dois gravetos expostos a luz solar - e de um ajudante dedicado... De lá para cá o método científico avançou de forma avassaladora, hoje a ciência já explica o nascimento do espaço-tempo até seus minutos iniciais, e investiga minuciosamente o próprio código que nos faz humanos - o Genoma.
Mas é o próprio "amigo inseparável" da ciência que afirma que não teremos tão cedo (talvez nunca) o conhecimento completo da realidade - detectada ou não. Os dados corroboram com o ceticismo: é verdade que a gravitação de Newton juntamente com a relatividade especial e geral de Einstein provaram ser capazes de medir com extrema exatidão a órbita da Terra e outros planetas em torno do Sol... Porém, a medida nunca alcança a exatidão máxima, pois é impossível prever os desvios provocados pelos campos gravitacionais de certos planetas minúsculos, luas, cometas, etc. Tudo bem, podemos afirmar que esses desvios serão mínimos; mas em sistemas binários ou trinários, onde temos mais de uma estrela orbitando juntas no centro gravitacional do sistema, ainda é impossível obter uma boa aproximação da órbita desses planetas, pois as equações tornam-se demasiado complexas. Da mesma forma, existe ainda muita coisa acima do céu, e do outro lado do véu, que a ciência não faz ainda vaga idéia de como exatamente funcionam: o problema difícil da consciência, a matéria escura, a unificação das forças fundamentais da natureza, o surgimento da vida na Terra, os diversos fenômenos ditos paranormais que ela não explica mas também não prova como fraude - e, aqui também, a lista seria interminável...
Isso não é ruim. Significa apenas que não obtemos o conhecimento pleno da natureza. Que não podemos bater no peito e dizer: "aqui está, esta é a verdade absoluta!" - Ah meu ver, a vida perderia muito de sua graça se isso fosse possível. Ainda temos muito para descobrir, investigar, compreender, evoluir em nosso conhecimento. Santo Agostinho dizia uma frase profunda, que explica a si mesma: "crer para compreender, compreender para crer." Toda jornada em busca de conhecimento é tão infinita quanto o céu noturno ou o olhar de uma criança recém-nascida. Este é o espanto, isto é o sagrado, é isso que sempre moveu o ser humano e os grandes sábios e gênios da humanidade.
E será que algum deles encontrou a verdade absoluta? Provavelmente não. Buda chegou ao nirvana e Jesus aparentemente tinha uma forte conexão com Deus, mas nenhum deles disse que havia chegado ao final do caminho. "Vocês farão tudo o que faço, e muito mais" - dizia aquele que muitos afirmam ser Deus. Ora, então nosso futuro será extraordinário - seremos deuses, faremos coisas que um deus faz e ainda muitas coisas mais. Para tal, não me parece necessário buscar apenas um caminho, apenas uma doutrina, apenas um sábio. Se é verdade que alguém tem de estar errado, também é verdade que muitas vezes alguém estará certo... Passo a passo, com a pequena vitória de cada um, caminhando juntamente com Newton "nos ombros de gigantes", sem dúvida o futuro me parece bem promissor. Qual é minha religião? Meu pensamento. Qual é minha ciência? Meu bom senso.
Você pode afirmar que "preciso escolher um lado", que "não posso ficar em cima do muro"... Mas eu não me alistei para lutar uma guerra. Eu fui chamado para um banquete de amigos no jardim de Epicuro - a minha felicidade na existência é buscar, é amar a sabedoria. Se por "em cima do muro" você quer dizer que eu não escolhi nenhuma igreja ou comunidade científica para defender... Direi-te que tem toda a razão. Mas acaso o "em cima do muro" signifique que reconheço o ecumenismo de toda crença e toda descrença, a liberdade sublime de cada ser fazer o que quer através da própria vontade, e de toda beleza que existe em tal sistema - então direi-te que estou equilibrado em cima deste muro.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O que é o Humanismo que surgiu no Renascimento


leonardo davinciO Humanismo é um movimento filosófico surgido no século XV dentro das transformações culturais, sociais, políticas, religiosas e econômicas desencadeadas pelo Renascimento.
Com a idéia renascentista de “dignidade do homem”, isto é, o homem está acima da Natureza, o Humanismo coloca o homem no centro do universo e seu estudo merece algumas considerações particulares.
Chegando ao século XVIII, na Filosofia Moderna, o homem é concebido como um ser ativo que domina a Natureza e com isso a sociedade. Embora não haja separação entre Natureza e homem dentro do movimento humanista, o homem é diferenciado dos demais manifestando suas diferenças na racionalidade, na moralidade, na ética, na técnica, nas artes, etc.
No Humanismo o homem, como ser dominante, está em sempre se aperfeiçoando através do desenvolvimento proporcionado pela sua racionalidade.
Mesmo datado de longa data, o Humanismo tem influência em várias áreas das ciências humanas. Sua importância reside na fundamental ruptura entre Igreja e Ciência, carregando consigo uma visão diferenciada do homem em relação aos demais elementos naturais.
Crítica:
É difícil conceber Humanismo devido às várias formas em que ele foi tomado pelas ciências humanas e pelas religiões, vindo a ser “humanismos” com características diferentes. Podemos falar de humanismo religioso, humanismo marxista, humanismo existencialista, etc. No senso comum o termo “humanista” freqüentemente é usado para caracterizar as pessoas que se preocupam com as causas sociais e com a caridade.
Sem dúvidas que o Humanismo foi um dos principais movimentos filosóficos que mudaram os rumos do conhecimento. Mas sua idéia principal e original foi pretenciosa demais.
A idéia de colocar o homem acima de todas as coisas e acreditar que ele é capaz progredir cada vez mais na temporalidade, soa um tanto quanto otimista demais. Daí decorre as dissidências do Humanismo original entre as ciências humanas.
Sartre, filósofo existencialista francês, em sua obra “Existencialismo é um Humanismo”, ironizando o fato do homem atribuir um valor de superioridade a si mesmo, questiona o Humanismo clássico: “Tal humanismo é um absurdo, pois só o cachorro ou o cavalo poderiam emitir um juízo de conjunto sobre o homem e declarar que o homem é admirável.”
Nesse sentido, tomar os pressupostos do Humanismo enquanto verdade seria como dar uma definição a nós mesmos da forma como queremos. A história tem mostrado que nem sempre progredimos; que a razão nem sempre está com a “razão”; e que racionalidade não significa a nossa salvação.
Obs.: o humanismo existencialista se distanciava do humanismo clássico na medida em que o homem não supera sua existência e sua condição se voltar apenas para si mesmo (o centro de todas as coisas), mas sim, procurando o devir sempre no fora de si. E é humanismo porque coloca que o homem é o único responsável de si.
* O homem de Vitrúvio – Leonardo da Vinci (1485-1490)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O benefício da dúvida


Difícil é lidar com donos da verdade. Não há dúvida de que todos nós nos apoiamos em algumas certezas e temos opinião formada sobre determinados assuntos; é inevitável e necessário. Se somos, como creio que somos, seres culturais, vivemos num mundo que construímos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Há aqueles que não chegam a formular claramente para si o que conhecem e sabem, mas há outros que, pelo contrário, têm opiniões formadas sobre tudo ou quase tudo. Até aí nada de mais; o problema é quando o cara se convence de que suas opiniões são as únicas verdadeiras e, portanto, incontestáveis. Se ele se defronta com outro imbuído da mesma certeza, arma-se um barraco.
De qualquer maneira, se se trata de um indivíduo qualquer que se julga dono da verdade, a coisa não vai além de algumas discussões acaloradas, que podem até chegar a ofensas pessoais. O problema se agrava quando o dono da verdade tem lábia, carisma e se considera salvador da pátria. Dependendo das circunstâncias, ele pode empolgar milhões de pessoas e se tornar, vamos dizer, um “fuhrer”.
As pessoas necessitam de verdades e, se surge alguém dizendo as verdades que elas querem ouvir, adotam-no como líder ou profeta e passam a pensar e agir conforme o que ele diga. Hitler foi um exemplo quase inacreditável de um líder carismático que levou uma nação inteira ao estado de hipnose e seus asseclas à prática de crimes estarrecedores.
A loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado, os sacerdotes exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessava, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar.
Foi também em nome do bem — desta vez não do bem espiritual, mas do bem social — que os fanáticos seguidores de Pol Pot levaram à morte milhões de seus irmãos. Os comunistas do Khmer Vermelho haviam aprendido marxismo em Paris não sei com que professor que lhes ensinara o caminho para salvar o país: transferir a maior parte da população urbana para o campo. Detentores de tal verdade, ocuparam militarmente as cidades e obrigaram os moradores de determinados bairros a deixarem imediatamente suas casas e rumarem para o interior do país. Quem não obedeceu foi executado e os que obedeceram, ao chegarem ao campo, não tinham casa onde morar nem o que comer e, assim, morreram de inanição. Enquanto isso, Pol Pot e seus seguidores vibravam cheios de certeza revolucionária.
É inconcebível o que os homens podem fazer levados por uma convicção e, das convicções humanas, como se sabe, a mais poderosa é a fé em Deus, fale ele pela boca de Cristo, de Buda ou de Muhammad. Porque vivemos num mundo inventado por nós, vejo Deus como a mais extraordinária de nossas invenções. Sei, porém, que, para os que creem na sua existência, ele foi quem criou a tudo e a todos, estando fora de discussão tanto a sua existência quanto a sua infinita bondade e sapiência.
A convicção na existência de Deus foi a base sobre a qual se construiu a comunidade humana desde seus primórdios, a inspiração dos sentimentos e valores sem os quais a civilização teria sido inviável. Em todas as religiões, Deus significa amor, justiça, fraternidade, igualdade e salvação. Não obstante, pode o amor a Deus, a fé na sua palavra, como já se viu, nos empurrar para a intolerância e para o ódio.
Não é fácil crer fervorosamente numa religião e, ao mesmo tempo, ser tolerante com as demais. As circunstâncias históricas e sociais podem possibilitar o convívio entre pessoas de crenças diferentes, mas, numa situação como do Oriente Médio hoje, é difícil manter esse equilíbrio. Ali, para grande parte da população, o conflito político e militar ganhou o aspecto de uma guerra religiosa e, assim, para eles, o seu inimigo é também inimigo de seu Deus e a sua luta contra ele, sagrada. Não é justo dizer que todos pensam assim, mas essa visão inabalável pode ser facilmente manipulada com objetivos políticos.
Isso ajuda a entender por que algumas caricaturas — publicadas inicialmente num jornal dinamarquês e republicadas em outros jornais europeus — provocaram a fúria de milhares de muçulmanos que chegaram a pedir a cabeça do caricaturista. Se da parte dos manifestantes houve uma reação exagerada — que não aceita desculpas e toma a irreflexão de alguns jornalistas como a hostilidade de povos e governos europeus contra o islã—, da parte dos jornais e do caricaturista houve certa imprudência, tomada como insulto à crença de milhões de pessoas.
Mas não cansamos de nos espantar com a reação, às vezes sem limites, a que as pessoas são levadas por suas convicções. E isso me faz achar que um pouco de dúvida não faz mal a ninguém. Aos messias e seus seguidores, prefiro os homens tolerantes, para quem as verdades são provisórias, fruto mais do consenso que de certezas inquestionáveis.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Albert Einstein ataca Deus


Uma carta inédita de Albert Einstein datada de 1954, ano anterior ao de sua morte, traz pela primeira vez críticas contundentes do físico à religião. No manuscrito dirigido a seu amigo filósofo Eric Gutkind, que será leiloada hoje em Londres, o autor das teorias da relatividade retrata as práticas religiosas como "infantis".

"A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana", escreveu Einstein, para quem a Bíblia seria "uma coleção de lendas honoráveis, ainda que primitivas".

O conteúdo da carta difere de declarações anteriores de Einstein, que, segundo historiadores, nunca havia deixado muito clara a sua visão sobre a religião. Nessa seara, o físico era mais lembrado pela frase "A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega".

Na carta a Gutkind, porém, Einstein classifica a crença em Deus como "produto da fraqueza humana", e não poupa nem a religião do povo ao qual pertencia. "A religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis." Einstein, um sionista que teve papel importante na criação do Estado de Israel, diz a Gutkind que não acredita que os judeus sejam um povo "escolhido".

A carta traz um certo tom de descrença na humanidade e a noção de que o poder corrompe as pessoas. Os judeus, diz, só estariam "protegidos dos piores cânceres por lhes faltar poder".

A casa de leilões Bloomsbury, onde o manuscrito original será vendido, diz estar "100% certa" da autenticidade do documento e que espera conseguir por ele um preço entre US$ 12 mil e US$ 16 mil. O vendedor é um colecionador particular.

Historiadores não costumam retratar Einstein como ateu, mas a imagem pode mudar com a publicação da carta. Sua visão sobre Deus era tida apenas como não-clerical ("Não creio no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal").
Fonte: Folha Online
Mais algumas informações:
Imagem da carta:
Outros links:
Letter to Eric Gutkind (partial)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Máquina de Crenças


O nosso cérebro e o nosso sistema nervoso constituem uma máquina geradora de crenças, um sistema que evolui não para garantir a verdade, a lógica e a razão, mas a sobrevivência. A máquina de crenças tem sete peças básicas.
Muitas pessoas creem nas ideias a seguir. Todas elas já foram calorosamente debatidas:
  • Através da hipnose pode-se conhecer vidas passadas
  • Horóscopos fornecem informações úteis sobre o futuro
  • Às vezes acontecem curas espirituais onde a medicina convencional falha
  • Está em andamento uma ampla conspiração satânica transgeracional na sociedade
  • Algumas pessoas com dons especiais podem usar seus poderes extra-sensoriais para ajudar a polícia a desvendar crimes
  • Às vezes nos comunicamos com outras pessoas telepaticamente
  • Algumas pessoas foram raptadas por OVNIs e voltaram à Terra
  • Elvis está vivo
  • Vitamina C cura ou previne resfriados
  • Imigrantes estão roubando os nossos empregos
  • Alguns grupos étnicos são intelectualmente inferiores
  • Alguns grupos étnicos são superiores atleticamente, pelo menos em alguns esportes
  • Crime e violência estão ligados à ruptura da família tradicional
  • O crescente poderio atômico da Coreia do Norte é uma ameaça à paz mundial
A despeito da grande confiança tanto de crentes como de descrentes, nenhum dos lados tem muitas evidências objetivas — se é que tem alguma — para sustentar sua posição. Algumas dessas crenças, como telepatia e astrologia, contradizem o conhecimento científico atual do nosso mundo e portanto são consideradas “irracionais” por muitos cientistas. Outras não contradizem a ciência, e baseadas em fatos ou não, ninguém as consideraria irracionais.
Os racionalistas do século dezenove previram que a superstição e a irracionalidade seriam derrotadas pela educação universal. Mas não foi isso que aconteceu. As altas taxas de alfabetização e a educação universal pouco fizeram para suavizar essa crença, e pesquisas atrás de pesquisas mostram que a imensa maioria da população acredita na realidade dos fenômenos “ocultos”, “paranormais” ou “sobrenaturais”. E por que isso acontece? Por que é que nesta época altamente científica e tecnológica a superstição e a irracionalidade prosperam?
É porque nosso cérebro e nosso sistema nervoso constituem uma máquina geradora de crenças, uma máquina que produz crenças sem qualquer consideração em particular por o que é real e verdadeiro e o que não é. Essa máquina de crenças seleciona informações do ambiente, molda-as, combina-as com informações armazenadas na memória e produz crenças que são geralmente consistentes com outras crenças já aceitas. Esse sistema gera crenças falaciosas da mesma maneira que aquelas em dia com a verdade. Essas crenças guiam ações futuras e, falsas ou não, podem ter utilidade para o seu portador. Se existe de fato ou não um céu para boas almas em nada diminui a utilidade dessas crenças para pessoas que procuram um sentido na vida.
Nada é fundamentalmente diferente sobre o que podemos pensar como crenças “irracionais” — elas são geradas da mesma maneira que as outras. Podemos não ter apoio das evidências para crenças em ideias irracionais, mas também não temos esse apoio para a maior parte das nossas crenças. Por exemplo, você provavelmente acredita que escovar os dentes é bom para você, mas provavelmente não tem nenhuma evidência para apoiar essa crença, a menos que seja dentista. Ensinaram-lhe isso e, por fazer sentido, você nunca questionou a ideia.
Se fôssemos conceituar o cérebro e o sistema nervoso como uma máquina de crenças, ela compreenderia diversas partes, cada uma refletindo um aspecto básico da geração de crenças. Entre as peças, as seguintes unidades têm importância especial:
  • A unidade de aprendizado
  • A unidade de pensamento crítico
  • A unidade dos desejos
  • A unidade de entrada
  • A unidade de resposta emocional
  • A unidade de memória
  • A unidade de feedback (resposta) ao ambiente

A Unidade de Aprendizado

A unidade de aprendizado é a chave para a compreensão da máquina de crenças. Ela está ligada à arquitetura física do cérebro e do sistema nervoso, e devido à sua natureza, estamos condenados a um processo virtualmente automático de pensamento mágico. “Pensamento mágico” é a interpretação de dois eventos próximos como sendo causa e efeito, sem nenhuma preocupação com o vínculo causal. Por exemplo, se você acredita que cruzar os dedos dá boa sorte, você associa o fato de cruzar os dedos com um subsequente evento favorável e estabelece um vínculo causal entre eles.
Nosso cérebro e nosso sistema nervoso evoluíram ao longo de milhões de anos. É importante perceber que a seleção natural não seleciona diretamente de acordo com a razão ou a verdade, ela seleciona de acordo com o sucesso reprodutivo. Nada em nosso aparelho cerebral dá um valor especial à verdade. Imagine um coelho na grama alta, e lhe conceda por um instante um grão de intelecto consciente e lógico. Ele ouve um ruído suave na grama, e tendo aprendido no passado que isso eventualmente é o sinal de uma raposa com fome, o coelho se pergunta se é uma raposa mesmo desta vez ou se uma lufada de ar causou o ruído. Ele espera por evidências mais conclusivas. Embora motivado pela busca da verdade, esse coelho não sobrevive por muito tempo. Compare esse falecido coelho com um outro, que responde ao ruído com uma forte reação do sistema nervoso autônomo e foge o mais rapidamente possível. Este tem mais chances de sobreviver e se reproduzir. Portanto, buscar a verdade nem sempre favorece a sobrevivência, e fugir baseado em uma crença errônea nem sempre é ruim. No entanto, embora essa estratégia possa dar certo na vida selvagem, pode ser bastante perigosa na era nuclear.
A unidade de aprendizado é tal que se aprende muito rapidamente pela associação de dois eventos significativos — como encostar em um forno quente e sentir dor. Associações significativas produzem um efeito duradouro, enquanto a dissociação dos mesmos eventos é muito menos importante. Se uma criança encostasse em um forno e se queimasse, e depois se encostasse de novo e não se queimasse, a associação entre dor e forno não seria automaticamente desaprendida. Essa assimetria básica — a associação de dois estímulos tem um efeito importante, enquanto que apresentar os estímulos desassociados (ou seja, individualmente) tem um efeito muito menor — é importante para a sobrevivência.
Essa assimetria no aprendizado também está subjacente ao erro que tinge nossos pensamentos sobre eventos que ocorrem juntos de tempos em tempos. Os humanos são muito ruins em julgar com precisão a relação entre eventos que só ocorrem juntos de vez em quando. Por exemplo, se pensamos no tio Alfredo e ele nos telefona alguns minutos depois, pode parecer que isso exige uma explicação em termos de telepatia ou precognição. No entanto, só podemos avaliar adequadamente as co-ocorrências desses eventos se também considerarmos o número de vezes que pensamos no tio Alfredo e ele não ligou, ou no número de vezes em que não pensamos mas ele ligou mesmo assim. Essas últimas circunstâncias — esses não-pareamentos — têm muito pouco impacto no nosso sistema de aprendizado. Por sermos superinfluenciados pelos pareamentos de acontecimentos significativos, inferimos uma associação entre os eventos, até mesmo causal, mesmo quando não há nenhuma. Assim, por acaso alguns sonhos podem corresponder aos eventos subsequentes muito raramente, e mesmo assim essa conexão pode ter um efeito dramático na crença. Ou sentimos que está vindo um resfriado, tomamos vitamina C, e quando se percebe que o resfriado não era tão forte inferimos uma conexão causal. O mundo à nossa volta está repleto de acontecimentos coincidentes. Alguns deles têm significado, mas a vasta maioria não tem. Isso fornece solo fértil para o crescimento de crenças falaciosas. Nós aprendemos prontamente que existem associações entre eventos, mesmo quando elas não existem. Frequentemente somos levados por eventos co-ocorrentes a inferir que o primeiro deles de alguma maneira causou o que o sucedeu.
Temos tendência ainda maior ao erro quando estão envolvidos eventos raros ou emocionalmente carregados. Sempre estamos procurando por explicações causais, e tendemos a inferi-las mesmo quando não existem. Você poderia ficar intrigado ou até mesmo muito incomodado se ouvisse um barulho alto na sua sala mas não encontrasse nenhum motivo para ele.

A Unidade de Pensamento Crítico

A unidade de pensamento crítico é o segundo componente da máquina de crenças, e é adquirida — adquirida através da experiência e do aprendizado explícito. Devido à arquitetura do sistema nervoso que descrevi, nós nascemos para pensar magicamente. A criança que sorri logo antes de o vento mover o móbile acima dela sorrirá novamente muitas vezes como se o sorriso tivesse magicamente causado o movimento desejado do móbile. Precisamos trabalhar para superar essa predisposição mágica, e nunca o conseguimos por completo. É pela experiência e ensino direto que entendemos os limites de nossas interpretações intuitivas mágicas imediatas. Pais e professores nos ensinam a lógica, e uma vez que ela nos ajuda bastante, a usamos quando parece apropriado. De fato, o paralelo cultural desse processo de desenvolvimento é o progresso do método formal de investigação lógica e científica. Percebemos que não podemos confiar em nossas inferências automáticas sobre co-ocorrências e causalidade.
Aprendemos a usar testes simples de razão para avaliar eventos à nossa volta, mas também aprendemos que certas classes de eventos não devem ser sujeitas à razão, mas aceitas por fé. Toda sociedade ensina coisas transcendentais — fantasmas, deuses, bicho-papão e assim por diante; e frequentemente nos dizem explicitamente para ignorar a lógica e aceitar tais coisas por fé ou baseados nas experiências de outras pessoas. Quando chegamos à vida adulta, podemos responder a um evento de forma lógica e crítica ou experimental e intuitiva. Os eventos em si é que frequentemente determinam como respondemos. Se eu lhe dissesse que fui para casa ontem e encontrei um hipopótamo na minha sala, seria mais provável que você risse do que acreditasse em mim, embora certamente não haja nada de impossível nesse evento. Se, por outro lado, eu lhe dissesse que entrei na sala e me assustei com um brilho estranho na cadeira do meu falecido avô, e que a sala esfriou, seria menos provável que você não acreditasse e mais provável que se interessasse e escutasse os detalhes, talvez suspendendo o julgamento afiado que usaria na história do hipopótamo. Às vezes emoções fortes interferem na aplicação do pensamento crítico. Em outras somos enganados com muita esperteza.
A racionalidade frequentemente está em desvantagem em relação ao pensamento intuitivo. O falecido psicólogo Graham Reed usava o exemplo da falácia do apostador: suponha que você esteja observando um jogo de roleta. Saiu preto dez vezes seguidas, e uma poderosa sensação intuitiva cresce em você, dizendo que logo deve sair vermelho. Não pode sair preto para sempre. Mas sua mente racional diz que a roleta não tem memória, que cada resultado é independente dos anteriores. Nesse caso, a luta entre intuição e racionalidade nem sempre é ganha pela racionalidade.
Notem que podemos ligar ou desligar a unidade de pensamento crítico. Como já comentei, podemos desligá-la completamente ao lidar com assuntos religiosos ou transcendentais. Às vezes, nós a ligamos deliberadamente: “peraí, tenho que pensar nisso”, é o que podemos nos dizer quando alguém tenta tirar dinheiro de nós por uma causa aparentemente boa.

A Unidade do Desejo

O aprendizado não acontece num vácuo. Nós não somos receptores passivos de informação. Nós buscamos informações ativamente para satisfazer nossas necessidades diversas. Podemos desejar achar um sentido na vida. Podemos desejar um sentimento de identidade. Podemos desejar nos curar de alguma doença. Podemos desejar estar em contato com entes queridos que já morreram.
Geralmente nós desejamos para diminuir nossa ansiedade. As crenças, sejam falsas ou não, podem suavizar esses desejos. Frequentemente, crenças que podem ser chamadas de irracionais pelos cientistas são as mais eficientes na suavização desses desejos. A racionalidade e a verdade científica tem pouco a oferecer para a maior parte das pessoas em termos de remediar suas ânsias existenciais. No entanto, as crenças em reencarnação, intervenção supernatural e vida eterna podem superar essa ansiedade em certo grau.
Quando mais desejamos, quando estamos com mais necessidade é que somos mais vulneráveis a crenças falaciosas que podem servir para satisfazer aqueles desejos.

A Unidade de Entrada

As informações entram na máquina de crenças às vezes na forma de experiências sensoriais diretas e às vezes na forma de informações codificadas e organizadas que se ouve no boca-a-boca, se lê em livros ou se vê em filmes. Nós somos ótimos para detectar padrões, mas nem todos os padrões que detectamos têm sentido. Nossos processos de percepção trabalham para dar sentido ao ambiente à nossa volta, mas eles fazem sentido — percepção não é a reunião passiva de informações, mas a construção ativa da representação do que acontece no nosso mundo sensorial. Nosso aparato perceptivo seleciona e organiza informações do ambiente, e esse processo está sujeito a muitos tipos de viés bem conhecidos que podem levar a crenças distorcidas. De fato, somos menos influenciáveis por informações que já não correspondam a crenças profundas. Assim, o devoto cristão pode estar muito bem preparado para ver a Virgem Maria; informações ou experiências perceptivas que sugerem que ela apareceu podem ser aceitas mais facilmente sem exame crítico do que por alguém que fosse ateísta. Similarmente acontece com experiências que podem ser consideradas de natureza paranormal.

A Unidade de Resposta Emocional

Experiências acompanhadas de fortes emoções podem deixar uma crença inabalável em qualquer explicação que o indivíduo tenha recebido na época dos fatos. Se alguém está envolvido em um aparente caso de telepatia ou OVNI, então os pensamentos posteriores podem muito bem ser dominados pela consciência de que a reação emocional foi intensa, levando à conclusão de que alguma coisa incomum realmente aconteceu. E as emoções por sua vez podem afetar diretamente tanto a percepção como o aprendizado. Algumas coisas podem ser interpretadas como bizarras ou incomuns devido às respostas emocionais que elas desencadeiam.
Há crescentes evidências de que nossas respostas emocionais podem ser desencadeadas por informações do mundo exterior mesmo antes de termos consciência de que algo aconteceu. Veja esse exemplo, exposto por LeDoux (1994) em seu recente artigo na Scientific American (1994, 270, pp. 50-57):
Uma mulher está caminhando na floresta quando recebe a informação — auditiva, como o farfalhar de folhas, ou visual, como a forma de um objeto delgado e curvo no chão — que dispara uma reação de medo. Essa informação, mesmo antes de chegar ao córtex, é processada na amígdala, que excita o corpo para um passo de alarme. Um pouco depois, quando o córtex já teve tempo suficiente para decidir se o objeto é mesmo uma cobra ou não, esse processamento cognitivo de informação aumentará a resposta de medo e o correspondente comportamento de fuga, ou neutralizará aquela resposta.
Isso é relevante para o entendimento das experiências paranormais, pois frequentemente uma experiência emocional acompanha a suposta experiência paranormal. Uma forte coincidência pode produzir um “zap” emocional que aponta para uma explicação paranormal, porque eventos normais não produziriam tal emoção.
Nossos cérebros também são capazes de gerar incríveis e fantásticas experiências perceptivas para as quais raramente estamos preparados. Experiências fora do corpo (Out of Body Experiences — OBEs), alucinações, experiências de quase-morte (EQMs ou Near-death Experiences — NDEs), experiências de pico — todas elas provavelmente se baseiam não em alguma realidade externa transcendental mas no próprio cérebro. Nem sempre conseguimos distinguir o material que vem do próprio cérebro do material que vem do mundo externo, e portanto podemos atribuir falsamente ao mundo externo as percepções e experiências criadas dentro do cérebro. Temos muito pouco treinamento em relação a essas experiências. Na infância, aprendemos a não confiar, via de regra, em sonhos e pesadelos. Nossos pais e nossa cultura nos dizem que eles são produto de nossos cérebros. Não estamos preparados para experiências mais misteriosas, como OBEs, alucinações, EQMs ou experiências de pico, e podemos estar tão despreparados que somos engolfados pela emoção e a vemos como profundamente significativa e “real” quer ela seja mesmo ou não.
Ray Hyman sempre lembrou aos céticos que não se surpreendessem caso um dia tivessem uma experiência emocional muito forte que parecesse exigir uma explicação paranormal. Dada a maneira com que nossos cérebros funcionam, deve-se esperar tais experiências de tempos em tempos. Se estivermos despreparados, elas podem se tornar experiências de conversão que levam a fortes crenças. Quando eu estava na faculdade, certo dia um colega com quem eu dividia meu escritório e que era tão cético quanto eu em relação ao paranormal, veio para a aula dominado pelo realismo e clareza de um sonho que ele tivera na noite anterior. No sonho, seu tio em Connecticut havia morrido. Tinha sido um sonho muito emocional, e era tão chocante que Jack me contou que se o seu tio morresse pouco depois daquilo, ele não conseguiria mais manter seu ceticismo sobre precognição. A experiência do sonho tinha sido realmente poderosa. Dez anos depois, o seu tio ainda estava vivo, e o ceticismo de Jack sobreviveu intacto.

A Unidade de Memória

Em virtude de nossas próprias experiências, acreditamos na confiabilidade de nossa memória e em nossa capacidade de julgar se uma lembrança é confiável ou não. Contudo, a memória é mais um processo construtivo que uma apresentação literal de experiências passadas, e as memórias estão sujeitas a um forte viés e distorções.
A memória não somente envolve a si mesma no processamento das informações que chegam e na moldagem de crenças; ela própria também é fortemente influenciada pelas percepções e crenças correntes. Ainda assim, é muito difícil que um indivíduo rejeite os produtos de sua própria memória, já que a memória pode parecer tão “real”.

A Unidade de Feedback (Resposta) ao Ambiente

As crenças nos ajudam a funcionar. Elas guiam nossas ações e aumentam ou reduzem nossas ansiedades. Se agimos a partir de uma crença e ela “funciona” para nós, mesmo sendo falsa, por que a mudaríamos? O feedback, ou retorno, do mundo externo reforça ou enfraquece nossas crenças, mas já que as crenças em si influenciam como o feedback é percebido, as crenças podem se tornar bastante resistentes a informações e experiências contrárias. Se você realmente acredita que ETs raptam pessoas, então qualquer evidência contrária pode ser mascarada por uma explicação supostamente racional — em termos de teorias conspiratórias, ignorância alheia ou o que for.
Como mencionei, crenças falaciosas frequentemente podem ter mais valor funcional que aquelas baseadas na verdade. Por exemplo, Shelley Taylor, em seu livro Positive Illusions, relata pesquisas que mostram que pessoas suavemente deprimidas frequentemente são mais realistas a respeito do mundo do que pessoas felizes. Pessoas emocionalmente saudáveis vivem, até certo ponto, construindo crenças falsas — ilusões — que reduzem a ansiedade e auxiliam o bem-estar, enquanto indivíduos deprimidos em certo grau veem o mundo com mais realismo. Pessoas felizes talvez subestimem as chances de contraírem câncer ou serem mortas, e talvez evitem pensar na realidade última da morte, enquanto pessoas deprimidas podem ser muito mais realistas em relação a essas questões.
Uma maneira importante de checar nossas crenças e percepções é compará-las com as crenças e percepções de outros. Se eu sou o único que interpretou o brilho estranho como uma aparição, é mais provável que eu reconsidere essa interpretação do que se várias outras pessoas tiverem a mesma impressão. Nós frequentemente procuramos pessoas que concordam conosco, ou escolhemos livros seletivamente para apoiar nossas crenças. Se a maioria duvida de nós, então mesmo sendo somente parte de uma minoria nós podemos trabalhar coletivamente para dissipar a dúvida e achar a certeza. Podemos invocar conspirações e casos abafados para explicar a ausência de evidências confirmatórias. Podemos conseguir inculcar nossas crenças em outros, especialmente crianças. Crenças comuns podem promover solidariedade social e até uma sensação de importância para o indivíduo e o grupo.

Conclusão

As crenças são geradas pela máquina de crenças sem qualquer preocupação automática pela verdade. A preocupação com a verdade é de uma orientação cognitiva adquirida de ordem superior que reflete uma filosofia subjacente que pressupõe uma realidade objetiva que nem sempre é percebida por nossos sentidos.
A máquina de crenças segue fazendo barulho, reforçando velhas crenças, cuspindo novas, raramente descartando alguma. Às vezes vemos os erros ou bobagens nas crenças de outros. Mas é muito difícil ver o mesmo em nossas próprias crenças. Acreditamos em todo tipo de coisas, abstratas e concretas: na existência do sistema solar, de átomos, pizzas e restaurantes cinco estrelas em Paris. Essas crenças não são diferentes em princípio das crenças em fadas na beira do jardim, em fantasmas em igrejas desertas, em lobisomens, conspirações satânicas, curas milagrosas e assim por diante. Todas elas são similares na forma, todas resultados do mesmo processo, apesar de diferirem muito em conteúdo. Elas podem, contudo, envolver mais ou menos as unidades de pensamento crítico e de resposta emocional.
Pensamento crítico, lógica, razão, ciência — essas são expressões que se aplicam de uma maneira ou de outra à tentativa deliberada de expulsar a verdade da confusão da intuição, percepção distorcida e da memória falível. O verdadeiro pensamento crítico poucas pessoas chegam a aceitar — aquele que não aceita rotineiramente as percepções e memórias. Criações da nossa imaginação e reflexos de nossas necessidades emocionais frequentemente interferem com ou suplantam a percepção da verdade e realidade. Ensinando e encorajando o pensamento crítico nossa sociedade se afastará da irracionalidade, mas nunca teremos sucesso completo em abandonar tendências irracionais devido à natureza básica da máquina de crenças.
A experiência frequentemente é uma ferramenta pobre na busca da realidade. O ceticismo nos ajuda a questionar nossas experiências e a evitar sermos levados a crer no que não é verdadeiro. Devemos tentar nos lembrar das palavras no falecido P. J. Bailey (em Festus: A Country Town): “Onde há dúvida, está a verdade — pois é sua sombra” (“Where doubt, there truth is — ‘tis her shadow”).
  • tradução: Daniel Sottomaior
  • fonte: CSICOP

O ÔNUS DO CETICISMO

Ótimo texto, do saudoso Carl Sagan.







por Carl Sagan

 O que é ceticismo? Não é nada muito esotérico. Nós o encontramos todos os dias. Quando compramos um carro usado, se formos minimamente inteligentes nós exercitaremos pelo menos um mínimo de atitudes céticas - se nossa formação escolar tiver deixado alguma coisa. Você pode dizer "este sujeito parece honesto.
Eu vou acreditar em tudo que ele disser". Ou você pode dizer "bem, eu ouvi dizer que às vezes acontecem pequenas fraudes na venda de um carro usado, talvez sem o conhecimento do vendedor" e aí você faz algum coisa. Você chuta os pneus, abre as portas, olha sob o capô (você pôde fazer tudo isso mesmo se não souber o que deveria estar sob o capô, ou pode trazer um amigo com queda para mecânica).
Você sabe que algum ceticismo é necessário, e você entende por quê. É desagradável que você talvez tenha que iscordar do vendedor ou lhe fazer perguntas que ele não queira responder.
Há ao menos um pequeno grau de confrontação interpessoal envolvido na compra de um carro usado e ninguém diz que isso seja especialmente agradável. Mas há uma razão boa para ela - porque quem não usar um mínimo de ceticismo, quem tem uma credulidade absolutamente irrestrita, provavelmente depois pagará algum preço por isso. Aí irá se arrepender por não ter feito um pequeno investimento em ceticismo.
Mas você não precisa passar quatro anos em um curso superior para entender isso. Todo mundo sabe disso. O problema é que carros usados são uma coisa, e comerciais de televisão ou pronunciamentos de presidentes e líderes de partidos são outra bem diferente.
Nós somos céticos em algumas áreas mas infelizmente não em outras.
Por exemplo, existem alguns comerciais da aspirina que revelam que o produto da concorrência tem somente um certo tanto do componente analgésico que os médicos mais recomendam - eles não dizem que componente misterioso seria esse - enquanto que o produto deles tem uma quantidade bem maior (1,2 a 2 vezes mais por comprimido). Portanto você deve comprar o produto deles. Mas por que não tomar dois comprimidos do produto concorrente? Não se deve perguntar. Não aplique ceticismo a esta questão. Não pense. Compre.
Essas afirmações em comerciais constituem pequenos enganos. Eles nos tomam um pouco de dinheiro, ou nos induzem a comprar um produto ligeiramente inferior. Não é tão terrível. Mas considere isto: Tenho aqui o programa da Feira Vida Integral (Whole Life Expo) deste ano em São Francisco.
Vinte mil pessoas compareceram no ano passado. Eis algumas palestras: "Tratamentos Alternativos para Pacientes de AIDS: reconstruindo as próprias defesas naturais e impedindo colapsos do sistema imunológico - conheça as últimas descobertas que a mídia ignorou até agora". Parece-me que essa palestra poderia fazer um mal bastante real. "Como Proteínas do Sangue Presas Causam Dor e Sofrimento". Em "Cristais, Seriam Eles Talismãs ou Pedras?" (eu tenho minha própria opinião), está escrito "assim como um cristal enfoca ondas de som e luz para rádio e televisão", mas aparelhos de cristal ainda estão muito distantes - "eles podem amplificar vibrações espirituais para o ser humano sintonizado". Eu aposto que muito poucos de nós estão sintonizados. Outra: "Retorno da Deusa, um Ritual de Apresentação." E outra: "Sincronicidade, a experiência do reconhecimento."
Essa é apresentada pelo "irmão Charles". Ou, na página seguinte, "Você, Saint-Germain, e a cura pela chama violeta". E continua, com um monte de propagandas sobre "oportunidades" - indo do dúbio ao espúrio - que estão disponíveis na feira Vida Integral.
Se você aparecesse na Terra em qualquer época durante a presença dos seres humanos, encontraria um conjunto de sistema de crenças populares mais ou mais menos similar. Elas mudam, freqüentemente com muita rapidez, freqüentemente ao longo de alguns anos: mas às vezes crenças desse tipo duram muitos milhares dos anos. Pelo menos algumas estão sempre disponíveis.

E eu penso que é razoável perguntar por quê. Nós somos Homo sapiens. Essa é a característica que nos distingue, esse parte do sapiens. Nós deveríamos ser inteligentes. Então por que é que essas coisas sempre nos acompanham?
Bem, para começar, muitos desses sistemas de crenças abordam necessidades humanas reais que não estão sendo providas por nossa sociedade. Existem necessidades médicas, espirituais e de comunhão com o resto da comunidade humana que não são satisfeitas. Pode haver mais falhas assim em nossa sociedade do que em muitas outras na história humana. E portanto é razoável que as pessoas fucem e experimentem, para ver se o tamanho serve, diversos sistemas de crenças, e vejam se eles ajudam.

Por exemplo, pegue uma moda como a canalização de espíritos. Sua premissa fundamental, como o espiritualismo, é que quando morremos nós não exatamente desaparecemos, que alguma parte de nós continua. Essa parte, dizem, pode reentrar nos corpos de humanos e outros seres no futuro, e assim a morte perde muito da sua força para nós pessoalmente. E mais, nós temos uma oportunidade, se as afirmações da canalização forem verdadeiras, de fazer contato com entes queridos que morreram.

Falando pessoalmente, eu adoraria que a reencarnação existisse. Eu perdi meus pais, os dois, nos últimos anos, e eu adoraria ter uma pequena conversa com eles, para contar o que as crianças estão fazendo, saber que tudo vai bem onde quer que eles estejam. Isso toca algo muito profundo. Mas ao mesmo tempo, eu sei que há pessoas que precisamente por essa razão tentarão tirar vantagem da vulnerabilidade de quem está de luto. É bom que os espiritualistas e os canalizadores tenham uma argumentação muito
convincente.
Ou tome a idéia de que se concentrando bem em formações geológicas pode-se descobrir onde estão os depósitos de minerais ou petróleo. Uri Geller afirma isso. Agora se você for um executivo de uma companhia de exploração mineral ou de petróleo, seu arroz e feijão dependem de encontrar os minerais ou o óleo: por isso, gastar uma quantidade desprezível de dinheiro para encontrar depósitos psiquicamente, comparada com o que você geralmente gasta na exploração geológica, não soa tão mal. Você pode ficar tentado.
Ou pense nos OVNIs, na afirmação de que seres em naves espaciais de outros mundos estão nos visitando toda hora. Eu acho essa uma idéia fascinante. É no mínimo uma ruptura do ordinário. Eu gastei uma boa quantidade de tempo em minha vida científica trabalhando na busca de inteligência extraterrestre.
Pense em quanto esforço eu poderia economizar se esses camaradas estiverem vindo pra cá. Mas quando reconhecemos alguma vulnerabilidade emocional a respeito de uma alegação, é bem aí que temos que nos esforçar ao máximo no escrutínio cético. É aí que nós podemos ser enganados.
Agora, reconsideremos a canalização. Existe uma mulher no estado de Washington que afirma fazer a contato com alguém de 35.000 anos atrás, "Ramtha" - que por sinal, fala inglês muito bem, com o que me parece ser um sotaque indiano. Suponha que Ramtha estivesse aqui e suponha que Ramtha cooperasse conosco. Poderíamos fazer algumas perguntas: como sabemos que Ramtha viveu há 35.000 anos? Quem está contando esses milênios? São exatamente 35.000 anos? Esse é um número bastante redondo. Trinta e cinco mil mais ou menos quanto? Como eram as coisas há 35.000 anos? Como era o clima? Em que parte da Terra Ramtha viveu? (eu sei que ele fala inglês com um sotaque indiano, mas onde foi isso?) O que Ramtha come? (os arqueólogos sabem algo sobre o que as pessoas comiam naquela época.) Nós teríamos uma oportunidade real de descobrir se suas afirmações são verdadeiras. Se fosse realmente alguém de 35.000 anos atrás, poderíamos aprender sobre essa época.
Assim, de um jeito ou de outro, ou Ramtha tem mesmo 35.000 anos, e nesse caso nós descobrimos alguma coisa sobre esse período - que é antes da idade de gelo de Wisconsin, uma época interessante - ou ele é falso e uma hora vai escorregar. Quais são as línguas indígenas, qual é a estrutura social, com quem Ramtha vive - filhos, netos - como é o ciclo de vida, a mortalidade infantil, que roupa ele usa, qual sua expectativa de vida, suas armas, plantas e animais? Conte para nós. Mas não, o que ouvimos são as homilias mais banais, indistinguíveis das que os alegados ocupantes de OVNIs contam
aos pobres seres humanos que afirmam ter sido seqüestrados por eles.
Ocasionalmente, por sinal, eu recebo uma carta de alguém que está "em contato" com um extraterrestre que me convida a "perguntar qualquer coisa".
E eu tenho uma lista de perguntas. Os extraterrestres são muito avançados, lembrem-se. Portanto eu peço coisas como "por favor forneça uma prova curta do último teorema de Fermat (Nota 1)". Ou da conjetura de Goldbach. E eu tenho que explicar o que são essa coisas, porque os extraterrestres não as chamarão de último teorema de Fermat, então eu escrevo uma pequena equação com expoentes. E nunca me respondem. Por outro lado, se eu perguntar algo como "humanos devem ser bons?" eles sempre me respondem. Acho que alguma coisa pode ser deduzida desta habilidade diferencial de responder a
perguntas. Qualquer pergunta vaga é respondida com muito prazer, mas qualquer coisa específica, em que haja a possibilidade de se descobrir se eles realmente sabem alguma coisa, só encontro o silêncio.
O cientista francês Henri Poincaré afirmou o seguinte sobre por que a credulidade é avassaladora: "também sabemos quão cruel a verdade freqüentemente é, e nos perguntamos se a ilusão não é mais consoladora". Foi isso que tentei dizer com meus exemplos. Mas eu não penso que essa seja a única razão de a credulidade ser  avassaladora. O ceticismo desafia instituições estabelecidas. Se ensinarmos a todos, digamos os estudantes do ensino médio, o hábito de ser céticos, talvez essas pessoas não restrinjam seu ceticismo a comerciais da aspirina e canalizadores de 35.000 anos (ou
canalizados). Talvez eles comecem a fazer perguntas difíceis sobre instituições econômicas, sociais, políticas ou religiosas. E onde iremos parar?
O ceticismo é perigoso. Essa é exatamente sua função, no meu ponto de vista. É função do ceticismo ser perigoso. E é por isso que há uma grande relutância para ensiná-lo nas escolas. É por isso que você não encontra uma fluência geral em ceticismo na mídia. Por outro lado, como dominaremos um futuro muito perigoso se não tivermos as ferramentas intelectuais mais elementares para fazer perguntas investigativas àqueles nominalmente no comando, especialmente em uma democracia?
Quero falar um pouco mais sobre o ônus do ceticismo. Você pode começar um hábito de pensamento que lhe dê prazer em zombar de todas as pessoas que não vêem as coisas com tanto cuidado como você . Este é um verdadeiro perigo social potencial em uma organização como CSICOP. Temos que nos proteger com cuidado contra ele.
Parece-me que é necessário um equilíbrio muito cuidadoso entre duas necessidades conflitantes: o escrutínio mais cético de todas as hipóteses que nos são oferecidas e ao mesmo tempo uma grande abertura a novas idéias.
Obviamente que essas duas modalidades do pensamento estão em alguma tensão.
Mas se você puder exercitar somente uma delas, qualquer que seja, você tem um problema sério.
Se você for somente cético, então nenhuma idéia nova chega até você. Você nunca aprende nada de novo. Você se transforma em uma velho excêntrico convencido de que besteiras governam o mundo (evidentemente que há muitos dados para lhe dar apoio.). Mas de quando em quando, talvez uma vez em cem casos, uma nova idéia acaba acertando, válida e maravilhosa. Se você estiver no hábito demasiado forte de ser cético com tudo, você não a perceberá ou se sentirá agredido, e de qualquer maneira estará barrando o caminho da compreensão e do progresso.
Por outro lado, se você estiver aberto ao ponto de ser crédulo e não tiver um grama de ceticismo, então você não conseguirá distinguir as idéias úteis das sem valor. Se todas as idéias tiverem validade igual então você está perdido, porque então, me parece,  nenhuma idéia tem validade alguma.
Algumas idéias são melhores do que outras. O aparato para distingui-las é uma ferramenta essencial para lidar com o mundo e especialmente com o futuro. E é precisamente a mistura dessas duas modalidades de pensamento que é central ao sucesso da ciência.
Os cientistas realmente bons fazem ambas as coisas. Quando não há ninguém por perto, falando sozinhos, eles criam um monte de idéias novas e as criticam sem piedade. A maior parte das idéias nunca chega ao mundo exterior. Somente as idéias que passam por rigorosos filtros pessoais conseguem sair e são criticadas pelo restante da comunidade científica.
Acontece às vezes que as idéias que são aceitas por todos acabam por se mostrar erradas, ou ao menos parcialmente erradas, ou ao menos substituídas por idéias mais gerais. E, se por um lado naturalmente existem algumas perdas pessoais - vínculos emocionais a  idéias que você mesmo ajudou a criar - não obstante a ética coletiva é de que toda vez que uma idéia assim cai e é substituída por algo melhor, a ciência beneficiou-se. Em ciência freqüentemente acontece que os cientistas digam "sabe, esse é um argumento
bom mesmo; minha posição está errada", e então mudam mesmo de idéia e você
nunca mais ouve aquela visão antiga. Isso acontece mesmo. Não tão freqüentemente como deveria, porque os cientistas são humanos e a mudança às vezes é dolorosa. Mas acontece todos os dias. Mas ninguém consegue lembrar qual foi a última vez em que algo assim aconteceu na política ou na religião. É muito raro que um senador, por exemplo, diga "esse é um bom argumento. Vou mudar minha afiliação política."
Eu gostaria de dizer algumas coisas sobre as entusiasmadas reuniões na busca por inteligência extraterrestre (SETI) e sobre linguagem de animais em nosso encontro do CSICOP. Na história da ciência há uma instrutiva seqüência de grandes batalhas intelectuais que no fim, todas elas, acabam sendo sobre quão centrais são os seres humanos. Podemos chamá-las de batalhas sobre a arrogância anti-Copernicano.
Eis algumas das questões: Nós somos o centro do universo. Todos os planetas, estrelas e o sol e a lua giram em torno de nós (puxa, isso que é querer ser realmente especial.) Essa
era a opinião que prevalecia - Aristarco à parte - até a época de Copérnico.
Muitas pessoas gostavam dela porque ela lhes dava uma injustificada posição central pessoal no universo. O mero fato de estar na Terra os fazia privilegiados. E a sensação era ótima. Depois surgiu a evidência que a Terra era somente um planeta e que aqueles outros pontos brilhantes de luz que se mexiam também eram planetas. Decepcionante. Deprimente até. Era melhor quando éramos centrais e únicos.
1. Mas ao menos nosso sol está no centro do universo. Não, aquelas outras estrelas são sóis também, e além disso nós estamos nos cafundós galácticos. Estamos bem longe do centro da galáxia. Deprimente mesmo.
2. Bem, pelo menos a Via Láctea está no centro do universo. Então, um pouco mais de progresso na ciência. E descobrimos que o centro do universo não existe. E mais: há cem outros bilhões de galáxias. Nada especial sobre esta. Profunda melancolia.
3. Bem, ao menos nós seres humanos, nós somos o pináculo da criação. Nós somos separados.
Todas aquelas outras criaturas, plantas e animais, são inferiores. Nós somos mais elevados. Nós não temos nenhuma conexão com eles. Cada ser vivo foi criado separadamente. Aí aparece Darwin. Descobrimos um continuum evolucionário. Nós estamos proximamente conectados aos outros animais e vegetais. E além disso, os parentes biológicos mais próximos a nós são os chimpanzés. Aqueles são nossos parentes próximos - aqueles? É uma vergonha. Você já foi ao jardim zoológico e prestou atenção neles? Você sabe o que eles fazem? Imagine na Inglaterra Vitoriana, quando Darwin teve esse insight, que verdade incômoda era essa.
Há outros exemplos importantes - sistemas de referência privilegiados na física e a mente inconsciente na psicologia - que nem abordarei. Eu afirmo que na tradição deste longo conjunto de debates - e cada um deles foi ganho pelos Copernicanos, aqueles que dizem que não há nada muito especial sobre que nós - havia uma profunda corrente emocional subliminar nos debates em ambas as sessões de CSICOP que mencionei. A busca por
inteligência extraterrestre e a análise de possíveis "línguas" animais ataca um dos últimos sistemas restantes de crenças de pré-Copernicanas:
1. Pelo menos somos as criaturas as mais inteligentes do universo. Se não houver mais ninguém inteligente em lugar algum, mesmo se nós estivermos ligados aos chimpanzés, mesmo se nós estivermos nos cafundós de um universo vasto e incrível, ao menos ainda existe algum coisa especial sobre nós. Mas no instante em que encontrarmos inteligência extraterrestre essa última fração de arrogância acaba. Eu creio que um pouco da resistência à idéia de inteligência extraterrestre é devida à arrogância anti-Copernicana. Do mesmo modo, sem favorecer qualquer lado no debate sobre se outros animais -
primatas antropóides, especialmente os grandes macacos - são inteligentes ou se têm linguagem, claramente essa é, em um nível emocional, a mesma questão. Se definirmos seres humanos como criaturas que têm linguagem e ninguém mais tem a linguagem, pelo menos somos originais em relação a isso. Mas se no fim todos aqueles chimpanzés sujos, repugnantes, risíveis, também conseguem, com Ameslan (Nota 2) ou de outra maneira, comunicar idéias, o que sobra de especial sobre nós? As predisposições emocionais nestas questões estão presentes, freqüentemente de maneira inconsciente, em debates científicos. É importante perceber que os debates científicos, assim como os
pseudocientíficos, podem ser encharcados de emoção, por estas razões e muitas outras.
Agora, vamos examinar melhor a busca em sinais rádio por inteligência extraterrestre. Em que isso é diferente de pseudociência? Vejamos alguns casos reais. No começo dos anos sessenta, os soviéticos deram uma entrevista coletiva em Moscou anunciando que uma distante fonte de rádio, chamada CTA-102, estava variando senoidalmente (como uma onda de seno), com um período de aproximadamente 100 dias. Por que convocaram uma coletiva para anunciar que uma fonte de rádio distante estava variando? Porque pensaram que fosse uma civilização extraterrestre de enorme poder. Vale a pena chamar
uma coletiva por isso. Isso foi antes mesmo que a palavra "quasar" fosse criada. Hoje nós sabemos que a CTA-102 é um quasar. Ainda não sabemos muito bem o que os são quasares, e há mais de uma explicação mutuamente exclusiva, para eles na literatura científica. Não obstante, poucos consideram seriamente que um quasar, como CTA-102, seja alguma civilização extraterrestre circundando a galáxia, porque existem diversas explicações alternativas de suas propriedades que são mais ou mais menos consistentes
com as leis físicas que conhecemos sem invocar vida extraterrestre. A hipótese extraterrestre é uma hipótese de último recurso. Somente se tudo mais falha você a tenta.
Segundo exemplo: cientistas britânicos encontraram em 1967 uma intensa fonte de rádio próxima que flutuava em um tempo mais curto, com um período constante em dez algarismos significativos. O que era? Sua primeira idéia foi a de algo como uma mensagem sendo emitida para nós, ou uma baliza de navegação interestelar para naves espaciais que andam entre estrelas.
Chegaram a lhe dar, entre eles na universidade de Cambridge, o irônica nome de LGM-1, Little Green Men (Homenzinhos Verdes). Porém (eles eram mais sábios do que os soviéticos), eles não convocaram uma coletiva, e logo ficou claro que o que tínhamos era o que se chama agora um "pulsar". Na verdade era o primeiro pulsar, o pulsar da nebulosa de Caranguejo. Bem, e o que é um pulsar? Um pulsar é uma estrela encolhida ao tamanho de uma cidade, que se mantém coesa de maneira diferente de qualquer outra estrela, não pela pressão de gás, não pela degeneração de elétrons, mas por forças nucleares.
É de certa maneira um núcleo atômico do tamanho de Pasadena (Nota 3). E acho que essa é uma idéia pelo menos tão bizarra quanto uma baliza de navegação interestelar. A resposta a o que é um pulsar deve ser algo bem estranho. Não é uma civilização extraterrestre, é outra coisa: mas uma outra coisa que abre nossos olhos e nossas mentes e indica possibilidades na natureza que ainda não tínhamos adivinhado.
E existe a questão dos falsos positivos. Frank Drake em sua original experiência de Ozma; Paul Horowitz no programa do META, Análise do Megacanal Extraterrestre (MEgachannel ExTraterrestrial Assay), patrocinado pela sociedade planetária; o grupo da universidade de Ohio e muitos outros grupos detectaram sinais anômalos que faziam o coração palpitar. Eles pensaram por um momento que tinham detectado um sinal genuíno. Em alguns casos não temos a menor idéia do que era, os sinais não se repetiram. Na noite seguinte você gira o mesmo telescópio para o mesmo ponto no céu com a mesma modulação e a
mesma freqüência e todo o resto igual, e não ouve nada. Você não publica os dados. Pode ser um mau funcionamento no sistema da detecção. Pode ser um avião militar AWACS voando por ali e transmitindo em canais de freqüência que deveriam ser reservados para a radioastronomia. Pode ser uma máquina diatérmica (Nota 4) na sua rua. Há muitas possibilidades. Você não declara imediatamente que encontrou inteligência extraterrestre quando encontra um sinal anômalo.
E caso se repetisse, então você anunciaria? Não. Talvez seja uma armação. Talvez seja algo que esteja acontecendo com o seu sistema que você não foi suficientemente inteligente para descobrir. Ao invés disso, você chamaria cientistas em um monte de outros radiotelescópios e diria que neste ponto específico do céu, nesta freqüência e filtro e em modulação e em todo o resto, parece que você detecta uma coisa estranha. Poderiam dar uma olhada e ver se acham algum coisa parecida? E somente se diversos observadores independentes conseguem o mesmo tipo da informação do mesmo ponto no céu você pensa que tem alguma coisa. Ainda assim você não sabe se aquela coisa é
uma inteligência extraterrestre, mas pelo menos você determinou que não é algo na Terra. (e que também não está na órbita da Terra; está mais longe que isso.) Essa é a primeira seqüência de eventos que seriam necessários para estar certo de que você realmente teve um sinal de uma civilização extraterrestre.
Note que há alguma disciplina envolvida. O ceticismo impõe um ônus. Você não pode sair gritando "homenzinhos verdes" porque vai parecer bem tolo, como aconteceu com os soviéticos e o CTA-102, quando no fim das contas for uma coisa bem diferente. É necessário um cuidado especial quando há tanta coisa em jogo como nesse caso. Nós não temos a obrigação de nos decidirmos antes de achar as evidências. Não tem problema não ter certeza.
Freqüentemente me perguntam se eu acho que exista inteligência extraterrestre. Eu dou os argumentos padrões - há muitos lugares lá fora, e uso a palavra bilhões, e assim por diante. E aí eu digo que seria incrível para mim se não houver uma inteligência extraterrestre, mas naturalmente não há até agora nenhuma evidência forte a favor dela. E aí me perguntam então, "é, mas o que acha de verdade?" E eu digo "acabei de dizer o que realmente penso". "Ok, mas o que a sua intuição diz?" Mas eu tento não pensar com
minha intuição. Não há problema em adiar o julgamento até que a evidências cheguem.
Depois que meu artigo "A Bela-Arte da Detecção de Asneiras" saiu na revista Parade (1 de fevereiro de 1987), ele recebeu, como você pode imaginar, muitas cartas. Sessenta e cinco milhões de pessoas lêem Parade. No artigo eu dei uma longa lista das coisas que eu afirmei serem "asneiras demonstrado ou presumido" - trinta ou quarenta itens. Pessoas que apoiavam todas aquelas idéias estavam igualmente ofendidas, portanto eu recebi montanhas de cartas.
Eu também dei um conjunto de instruções bem simples sobre como pensar sobre asneiras- argumentos de autoridade não são válidos, cada etapa na cadeia de evidências tem que ser válida, e assim por diante. Muitas pessoas escreveram dizendo "você está absolutamente certo nas generalidades; infelizmente isso não se aplica à minha doutrina particular". Por exemplo, uma pessoa escreveu que a idéia de que a vida inteligente existe fora da terra é um exemplo excelente de asneira. Ele concluiu: "estou tão certo disso como de qualquer outra coisa em minha experiência. Não há nenhuma vida consciente em qualquer outra parte do universo. A humanidade retorna assim a sua justa posição como o centro do universo".
Outra pessoa também concordou com todas as minhas generalidades, mas disse que como um cético inveterado eu fechei minha mente à verdade. Mais notável é que eu tenha ignorado a evidência para uma Terra cuja idade seja de seis mil anos. Bem, eu não a ignorei; eu considerei a evidência apresentada e então a rejeitei. Há uma diferença, e esta é uma diferença, pode-se dizer, entre preconceito e o "pósconceito". O preconceito faz um julgamento antes de olhar os fatos. Pósconceito faz o julgamento depois. O preconceito é terrível, no sentido de que você comete injustiças e erros sérios.
Pósconceito não é terrível. É claro que você não pode ser perfeito; você também comete erros. Mas é permissível fazer um julgamento depois de ter examinado as evidências. Em alguns círculos é até incentivado.
Eu acredito que parte do que propele a ciência é a sede de maravilhamento. É uma emoção muito poderosa. Todas as crianças a sentem. Em uma sala de aula de primeira série todos a sente; em uma sala de aula do último ano do ensino médio quase ninguém a sente, ou sequer a reconhece. Algo acontece entre essa primeira e última séries, e não é só a puberdade. Não somente as escolas e a mídia não ensinam muito ceticismo, mas também há pouco incentivo dessa agitante sensação de maravilhamento. Ciência e pseudociência, ambos despertam esse sentimento. Popularizações pobres da ciência estabelecem um nicho ecológico para a pseudociência.
Caso se explicasse a ciência ao indivíduo médio de uma maneira que fosse acessível e emocionante, não haveria espaço para a pseudociência. Mas há um tipo da Lei de Gresham (Nota 5) que estabelece que na cultura popular a ciência ruim tira o espaço da boa. E penso que a culpa disso é, em primeiro lugar, de nós na comunidade científica por não fazer um trabalho melhor na popularização da ciência, e em segundo, a mídia, que é nesse sentido quase uniformemente terrível. Todo jornal na América tem uma coluna diária de astrologia. Quantos têm uma coluna ao menos semanal de astronomia? E eu
acredito que também é culpa do sistema educacional. Nós não ensinamos como
pensar. Esta é uma falha muito séria que pode até, em um mundo equipado com
60.000 armas nucleares, comprometer o futuro da humanidade.
Eu afirmo que existe muito mais maravilha na ciência do que na pseudociência. E além disso, em qualquer medida que este termo tenha algum sentido, a ciência tem a virtude adicional, que não é pequena, de ser verdadeira.
Notas:
1 - O último teorema de Fermat já foi resolvido. E foi por humanos.
2 - American Sign Language (Linguagem de Sinais Americana).
3 - Cidade do interior da Califórnia.
4 - Diatermia é a geração terapêutica de calor dentro do corpo através de
correntes geradas por campos eletromagnéticos.
5 - Lei de Gresham, princípio econômico de que moedas que têm valor pleno em
termos de metal precioso tendem a desaparecer quando circulam em um sistema
monetário depreciado. De acordo com essa lei, as boas moedas são exportadas
ou derretidas para se capitalizar o seu valor de mercado mais alto no câmbio
estrangeiro.
Informativo:
O ensaio base original está disponível em
http://www.positiveatheism.org/writ/saganbur.htm
Texto extraído da Sociedade da Terra Redonda
http://ww

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O pensamento cético

O pensamento cético é caracterizado pela aceitação racional da dúvida, sempre que as respostas disponíveis para um dilema não estão fundamentadas por evidências satisfatoriamente consistentes.

A expressão “satisfatoriamente consistente” é necessária à definição para que não caiamos na armadilha que os Céticos da Grécia clássica montaram para si próprios ao entenderem que a prova de uma proposição também tinha de ser provada, criando assim uma sequência ad infinitum da necessidade de provar a prova da prova da prova… terminando por concluir que nenhuma certeza, sobre o que quer que seja, poderia ser possível.


Os Céticos gregos refutavam a idéia de que determinadas verdades são auto-evidentes e portanto não precisavam ser provadas. Tal opção condenou seus adeptos a estabelecerem um ramo estéril da Filosofia, pois sendo esta aplicação do pensamento humano focada na busca da Verdade, considerar tal objetivo como inalcançável é o mesmo que jogar a toalha antes do início da luta.

Hoje em dia, dificilmente encontraremos entre as pessoas autodenominadas Céticas, a mesma postura xiita de apologia da dúvida dos seguidores de Pirro. Orientados pelo paradigma do Método Científico, os céticos modernos em geral aceitam que evidências objetivamente demonstradas e comprovadas por várias e diferentes fontes imparciais são suficientes para dar credibilidade à uma proposição. Credibilidade entretanto não significa fé, podendo ser derrubada caso novas evidências se sobreponham as antigas.

Livres dos radicalismo de seus antecessores clássicos, os céticos atuais ainda estão sujeitos a pelo menos uma armadilha na qual muitos caem sem perceber: Aceitação racional da dúvida não deve significar conformismo diante da dúvida.

Num entendimento produtivo do ceticismo, a dúvida deve ser visto como uma ferramenta e nunca como um objetivo.

Mesmo que aceitemos que determinadas questões não podem ser respondidas no nosso nível de conhecimento atual ou mesmo que esteja claro que o nível de conhecimento que traria a resposta não será alcançado no período de nossas vidas, não há porque concluir que devam existir questões que jamais terão resposta ou que a certeza definitiva quanto a elas não será estabelecida em alguma época futura.

O moderno Ceticismo, portanto, não deve ser entendido como a apologia da dúvida. Pelo contrário, o cético preza tanto a certeza que está disposto a esperar o tempo que for necessário por ela

quarta-feira, 30 de março de 2011

AÇÃO TRANSFORMADORA DO SER HUMANO

Contígua à concepção da natureza humana tem operado outra que nos falou da passividade da consciência. Esta ideologia considerou o homem como uma entidade que agia em resposta aos estímulos do mundo natural. O que começou em grosseiro sensualismo, aos poucos foi sendo deslocado por correntes historicistas que conservaram no seu seio a mesma idéia em torno da passividade. E ainda quando privilegiaram a atividade e a transformação do mundo por sobre a interpretação de seus fatos, conceberam a dita atividade como resultante de condições externas à consciência. Mas, aqueles antigos preconceitos em torno da natureza humana e da passividade da consciência hoje se impõem, transformados em neo-evolucionismo, com critérios tais como a seleção natural que se estabelece na luta pela sobrevivência do mais apto. Tal concepção zoológica, na sua versão mais recente, ao ser esta transplantada ao mundo humano tratará de superar as anteriores dialéticas de raças ou de classes com uma dialética estabelecida segundo leis econômicas «naturais» que auto-regulam toda a atividade social. Assim, mais uma vez, o ser humano concreto fica submerso e objetivado.

Mencionamos acima as concepções que para explicar o homem começam desde generalidades teóricas e sustentam a existência de uma natureza humana e de uma consciência passiva. Em sentido oposto, nós sustentamos a necessidade de arranque desde a particularidade humana, sustentamos o fenômeno histórico-social e não natural do ser humano e também afirmamos a atividade de sua consciência transformadora do mundo, de acordo com sua intenção. Vemos sua vida em situação e seu corpo como objeto natural percebido imediatamente e submetido também imediatamente a numerosos ditados de sua intenção. Por conseguinte se impõem as seguintes perguntas: como é que a consciência é ativa? Isto é, como é que ela pode intencionar sobre o corpo e através dele transformar ao mundo? Em segundo lugar, como é que a constituição humana é histórico-social? Estas perguntas devem ser respondidas a partir da existência particular para não recair em generalidades teóricas segundo as quais se deriva depois um sistema de interpretação. Desta maneira, para responder à primeira pergunta terá que apreender-se, com evidência imediata, como a intenção atua sobre o corpo e, para responder à segunda pergunta haverá que partir da evidência da temporalidade e da intersubjetividade no ser humano e não de leis gerais da história e da sociedade. Em nosso trabalho, Contribuições ao Pensamento, trata-se de dar resposta precisamente a essas duas perguntas. No primeiro ensaio de Contribuições se estuda a função com que cumpre a imagem na consciência, destacando sua aptidão para movimentar o corpo no espaço. No segundo ensaio do mesmo livro, se estuda o tema da historicidade e sociabilidade. A especificidade destes temas nos afasta demais da presente carta, por isso remetemos ao material citado.

A POSIÇÃO HUMANISTA


         A ação dos humanistas não se inspira em teorias fantasiosas sobre Deus, a Natureza, a Sociedade ou a História. Ela parte das necessidades da vida que consistem em afastar a dor e aproximar o prazer. Porém, a vida humana acrescenta às necessidades a sua previsão do futuro, baseando-se na experiência passada e na intenção de melhorar a situação atual. A sua experiência não é um simples produto de seleções ou acumulações naturais e fisiológicas, como sucede em todas as espécies, é sim experiência social e experiência pessoal dirigidas para superar a dor atual e para evitá-la no futuro. O seu trabalho, acumulado em produções sociais, passa e transforma-se, de geração em geração, em luta contínua pela melhoria das condições naturais, mesmo as do próprio corpo. Por isto, o ser humano deve ser definido como histórico e com um modo de ação social capaz de transformar o mundo e a sua própria natureza. Cada vez que um indivíduo ou um grupo humano se impõe violentamente a outros, consegue parar a História, converte suas vítimas em objetos "naturais". A natureza não tem intenções, portanto, ao negar-se a liberdade e as intenções de outros, estes são convertidos em objetos naturais, em objetos de uso.

O progresso da humanidade, em lenta ascensão, necessita transformar a natureza e a sociedade eliminando a violenta apropriação animal de uns seres humanos por outros. Quando isto acontecer, passar-se-á da Pré-História a uma plena História humana. Entretanto, não se pode partir de outro valor central que o do ser humano pleno nas suas realizações e na sua liberdade. Por isso, os humanistas proclamam: “Nada acima do ser humano e nenhum ser humano embaixo de outro”. Quando se põe como valor central Deus, o Estado, o Dinheiro ou qualquer outra entidade, subordina-se o ser humano criando condições para o seu ulterior controle ou sacrifício. Os humanistas têm este ponto claro. Os humanistas são ateus ou crentes, mas não partem do seu ateísmo ou da sua fé para fundamentar a sua visão do mundo e a sua ação; partem do ser humano e das suas necessidades imediatas. E se na sua luta por um mundo melhor, crêem descobrir uma intenção que mova a História em direção progressiva, põem essa fé ou essa descoberta ao serviço do ser humano.

Os humanistas colocam o problema de fundo: saber se se quer viver e decidir em que condições fazê-lo.

Todas as formas de violência seja física, econômica, racial, religiosa, sexual e ideológica, graças às quais se tem travado o progresso humano, repugnam aos humanistas. Toda forma de discriminação, manifesta ou velada, é um motivo de denúncia para os humanistas.

Os humanistas não são violentos, mas acima de tudo não são covardes nem temem enfrentar a violência porque a sua ação tem sentido. Os humanistas conectam a sua vida pessoal com a vida social. Não levantam falsas antinomias e nisso radica a sua coerência.

Assim está traçada a linha divisória entre o Humanismo e o Anti-humanismo. O Humanismo põe à frente a questão do trabalho face ao grande capital; a da Democracia real frente à Democracia formal; a da descentralização frente à centralização; a da anti-discriminação frente à discriminação; a da liberdade frente à opressão; a do sentido da vida frente à resignação, à da cumplicidade e ao absurdo.

Porque o Humanismo se baseia na liberdade de escolha é que possui a única ética válida do momento atual. De igual modo, porque acredita na intenção e na liberdade, distingue entre o erro e a má fé, entre o equivocado e o traidor.

terça-feira, 22 de março de 2011

SONHOS MOSTRAM O FUTURO? -



Hoje sabemos que os seres vivos não foram criados seis mil anos atrás por um ser sobrenatural, mas a vida existe há bilhões de anos. Experimentos científicos já mostraram como pode ser sido o início da vida em nosso planeta.

"Em 1953, um jovem químico americano da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, tentou reproduzir em laboratório as condições iniciais para a vida. Ele juntou compostos químicos que se acreditava existir na Terra primitiva com um ingrediente fundamental: eletricidade. O cientista é Stanley Miller [nascido em 1930]...

Marcelo Gleiser pergunta a Stanley Miller o que ele pôs dentro dos tubos que simulavam a atmosfera primitiva da Terra. Ele conta que misturou água, hidrogênio, amônia, gás metano e gás carbônico. Era o que existia em abundância nos primórdios do nosso planeta. Apenas matéria inorgânica. Stanley Miller imaginou um mundo primitivo com tempestades elétricas constantes. Por isso, aplicou uma corrente elétrica à mistura. O resultado da experiência foi surpreendente. A corrente elétrica fez com que os compostos se reagrupassem, dando origem a aminoácidos. Aminoácidos são compostos essenciais que existem em todos os seres vivos. Vinte e dois aminoácidos compõem a matéria-prima da vida, o código da vida, presente em cada célula de cada ser vivo. Com essa experiência, Stanley Miller demonstrou que é possível, no laboratório, formar as moléculas que compõem todos os seres vivos" (Fantástico, 22/10/2006).

"Pouco tempo depois, em 1957, Sidney Fox submeteu uma mistura de aminoácidos secos a aquecimento prolongado e demonstrou que eles reagiam entre si, formando cadeias peptídicas, com o aparecimento de moléculas protéicas pequenas"
(http://members.tripod.com/~netopedia/biolog/origem.htm).

Depois das provas que temos de que a vida existe a bilhões de anos, e não apenas seis milênios como diz a bíblia, podemos dizer que o impossível é vir à existência espontaneamente um ser perfeito onipotente, onisciente, como o deus que o mundo prega. Mas surgir vida de forma mais primária de matéria inanimada já está evidenciado, pelas experiências de Stanley Miller e Sidney Fox. Não temos todas as respostas para todas as perguntas; entretanto, há base suficiente para acreditarmos que a vida surgiu de forma elementar e se aperfeiçoou ao longo de milhões de milênios. E os fósseis corroboram essa evolução.